As boas intenções e suas consequências

Acabo de ler um livro muito interessante sobre as relações humanas, sejam de trabalho, consumo ou pessoais, nesta era de web 2.0: Numerati, de Stephen Baker, jornalista da revista norte-americana Business Week.

Em um capítulo dedicado inteiramente à saúde, o autor mostra problemas que já são familiares ao dia-a-dia das equipes médicas: a perda de informações durante o trânsito por diversas áreas da instituição, nosso esquecimento ao relatar sintomas e comportamentos ao médico durante a consulta, a interrupção do tratamento, por esquecimento ou vontade própria, sem avisar o médico, etc.

A solução, pelo que apontam as pesquisas realizadas por grandes multinacionais de TI e cuidados com a saúde, seria o monitoramento 24 horas, por meio de sensores espalhados pelas nossas casas, roupas e eletrodomésticos, e programas que monitorem nossas conversas ao telefone e e-mails.

A avalanche de dados que nós forneceríamos por estes sensores seria analisada por algoritmos personalizados, para evitar confusões e erros na comunicação com instituições de saúde.

Se por um lado se perde privacidade, por outro se ganha segurança e comodidade, já que as idas ao consultório podem se tornar menos frequentes e os pacientes, especialmente os idosos, conquistam mais autonomia.

Este caminho de monitoramento já parece sem volta, mas aí passamos do controle de uma condição já existente para um assunto que ainda gera muita polêmica: o mapeamento genético.

Se é possível que os profissionais da estatística, chamados de Numerati por Baker, acompanhem de perto nossos sintomas e comportamentos, também é fácil imaginar que eles, também por algoritmos, possam prever quais doenças iremos desenvolver no futuro, combinando a análise de DNA aos hábitos de vida e até mesmo a fatores como clima, lugar onde moramos e pessoas com quem nos relacionamos.

A vantagem é clara: o diagnóstico precoce e até anterior a doença pode ajudar a eliminar uma série de patologias, aumentando a qualidade e a expectativa de vida.

A desvantagem está na mudança das relações sociais e econômicas ao se expor as condições de saúde de cada indivíduo, o que pode criar, guardando-se as devidas proporções, um apartheid genético.

Os planos de saúde vão cobrar mais de quem tem predisposição à doença de Parkinson ou Alzheimer? As empresas vão se recusar a oferecer o benefício do plano de saúde para quem estiver convivendo com uma possibilidade, mesmo que mínima, de desenvolver câncer?

E, pelo lado do indivíduo, o dilema é ainda pior. Você quer saber que tem uma grande probabilidade de sofrer um AVC nos próximos dez anos ou prefere viver feliz, sem se preocupar com isso? É melhor estar consciente e viver angustiado, esperando pela doença, ou ser um pouco negligente e deixar que o tempo se encarregue de livrá-lo ou condená-lo a esta condição?

A adoção de novas ferramentas e padrões sem análise cultural, econômica e social, pode trazer mais danos que benefícios, mesmo que, a princípio, as intenções sejam as melhores (como sempre são, até alguém distorcer seu uso). Por isso, é urgente também ampliar estas discussões e estudos do impacto de novas ferramentas antes mesmo que elas entrem no mercado, ao contrário do que se faz hoje. As duas coisas precisam andar juntas: a busca por facilidades, fazendo uso da racionalidade, e a manutenção dos valores humanos, apoiados em nossos sentimentos, leis, história e cultura.

P.S.: Você também pode ler este post no meu blog do Saúde Business Web.

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1 comentário

Arquivado em Saúde

Uma resposta para “As boas intenções e suas consequências

  1. Acho temerário, sob qualquer ponto de vista. Escrevi sobre questão semelhante um dia desses (http://blogdogerson.wordpress.com/2009/10/29/controle-virtual/). De todo modo, reconheço que possamos apenas estar, como as gerações que nos antecederam e as que nos sucederão, nos assombrando com as próprias invenções. Beijos!

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